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Caminho

Por Estefania Lima, idealizadora da Revista Urdume e Co-fundadora do Instituto com o mesmo nome, apresenta o desenrolar do fio de uma organização dedicada as mãos e ao têxtil


Temos de ter coragem de ser radicalmente vivos e não ficar barganhando a sobrevivência”, esta frase do líder indígena Ailton Krenak tem sido meu mantra diário nesses tempos sombrios. No final de 2018 criei a Revista Urdume. O país passava por um período difícil, 2019 não seria mais fácil e, ainda não tínhamos ideia, do que passaríamos no mundo e, especialmente no Brasil, nos anos seguintes.


Por isso, lembro de, no lançamento da primeira edição impressa da revista, em fevereiro de 2019, ouvir repetidamente o quanto eu era corajosa. Na verdade, sabia que com aquilo a maioria das pessoas queriam me dizer como eu era ingênua ao acreditar que seria possível manter uma revista independente e impressa em plena crise editorial e econômica que atravessamos no país.


Ingênua não era, sabia dos riscos que eu corria, mas como diz Krenak, estava cansada de barganhar minha sobrevivência. Naquele momento ou eu acreditava na força que se apresentava a mim em forma de fios e textos, ou seguiria como sempre, doente, tentando me encaixar em um sistema que não me servia.


Claro, é verdade que a caminhada foi e tem sido mais difícil do que eu previa. De lá pra cá, a revistas passou por muitas idas e vindas. Passei noites e noites em claro sem saber como saldar as contas, desesperada por achar que gerenciar um negócio para mim, mas foi através dela também que aprendi a estar viva. Se por um lado, ao fazermos do nosso jeito, há uma insegurança sobre tudo que se faz, por outro, na hora do vamos ver, é você quem tem que fazer. E assim, um projeto que começou de muita vontade, mas também muito medo, aos poucos foi deixando de ser algo para agradar os outros e tornando-se algo no qual eu poderia transpor aquilo que percebo e sinto.


Foi assim que, após ser tramada pela Urdume, tive condições de, junto com quem esteve sempre comigo, criar o que eu realmente queria, não um negócio, mas um Instituto. No final de 2020, após passar pela prova inicial que foi viver essa pandemia que, enfim, puder dar forma a uma iniciativa que não se restringiria a um único objetivo, mas que buscaria sustentar múltiplos fios para descrever analogias, afinidades eletivas e revelar o ecossistema político, econômico, cultural e social que envolve o labor, o trabalho e as artes manuais têxteis. Um espaço capaz de olhar para a arte, o artesanato e o trabalho manual têxtil de forma ampliada e não folclórica, desvendando seus pilares de sustentação e colaborando com um ecossistema múltiplo que abriga artistas, artesãos, educadores, terapeutas, empreendedores, profissionais da moda, antropólogos, jornalistas e amantes dos fios.


Uma alegria que este mês se traduz no lançamento do Glossário Colaborativo sobre artes manuais têxteis latinoamericanas, feito em parceria com o Sesc Pinheiros e mais de 30 artistas-pesquisadores. O resultado apresenta uma panorama das artes manuais têxteis no sul global e é um marco como nossa primeira ação de mapeamento desses campos. Convido todos a acessarem e baixarem a publicação que está disponível gratuitamente na plataforma do Sesc digital: https://sesc.digital/conteudo/artes-visuais/festa-2021/glossario-colaborativo



Estefania Lima é idealizadora, editora da Revista Urdume e co-fundadora do Instituto Urdume. Mestre em ciências médicas pela FMUSP, Graduada em em Comunicação Social e graduanda em Filosofia pela UFPR, ministra cursos sobre artes manuais têxteis e é coordenadora do núcleo de pesquisas sobre o tema no Instituto.


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3 comentários


Estefânia, parabéns pelo belo trabalho.

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Estefânia, parabéns pelo belo trabalho.

Maria José de Carvalho.

Diretora do grupo Mjc Textilia.

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Estefania Lima
Estefania Lima
09 de jul. de 2021
Respondendo a

Muito obrigada, Maria José! Um grande abraço.

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